quinta-feira, maio 27, 2004

Torn

Trabalho, estudos, televisão, comida, sono, sonho, trabalho... Um círculo vicioso que resume quase totalmente minha vida medíocre. Busco respostas, motivação ou mesmo uma necessidade qualquer que possa me trazer mais sentido aos meus atos. Uma busca qualquer ou mesmo uma aventura; mas nada, absolutamente nada, acontece de novo. Apenas o tédio interminável e o vazio sem sentido. Mas chega de conjecturar e vambora pro trabalho!
Carro enquiçado, ônibus lotado, todos com caras sérias(como deve ser); uma garotinha chora por não querer ir à escola, uma senhora reclama porque um boy não lhe dá lugar, o cobrador grita a plenos pulmões para que nos aglomeremos mais no fundo do coletivo e o motorista assovia uma canção velha que me lembra meus avós. Tudo absurdamente normal; mas uma freada brusca muda tudo. Barulho de ferro retorcido, gritos, cheiro de queimado, sirenes, inconsciência.
Ainda me lembro da sensação de acordar ante à luz pálida do quarto de parede azul do hospital. Lembro-me do torpor na visão, assim como me lembro dela... Cabelos totalmente brancos e longos como o infinito, olhos negros como a noite sem lua e um sorriso tão jovem quanto a aparência do seu rosto:
- Olá, eu sou Clara. Você dormiu por dois bons dias, mas está tudo bem! É um milagra você sair ileso!
- Dois dias? Pra um insone isso até que é um belo recorde. Como estão os outros passageiros?
- Sobraram apenas você e uma memnina de nome Nadine! Alías, você deve conhecê-la, afinal foi você quem a salvou, protegendo-a com seu corpo.
- Desculpe,ma snão me lembro de nada e nem sequer conheço essa jovem.
- Vou trazê-la para ser sua companheira de quarto, ela não tem mais ninguém no mundo e precisa de amigos.
Com a saída de Clara adormeci mas algumas horas e acordei com uma mãozinha puxando meu lençol:
- 'Brigado Tio! A Tia Clara disse que eu só tou andando por tua causa. Você quer ser meu pai? A Tia Clara pode ser a minha mãe...
Clara ouviu tudo da porta e escondeu-me o rosto, mas confesso que a sinceridade daquela linda jovenzinha de olhos negros me encantava.
Os dias passavam lentos e as sessões de fisioterapia incomodavam, mas tanto Nadine quanto Clara davam-me incentivo a vencer a dor e voltar a andar. Ainda assim não conseguia mover um músculo abaixo da cintura por mais que tentasse. Mas tudo mudaria em uma única noite.
Clara, ao dar-me o tradicional selinho de boa noite sussurrou um "volto depois" que mexia com a imaginação. Dito e feito, na madrugada, enquanto Nadine dormia ela regressou e me disse, insinuante:
- Você sabe o que eu quero... O que você quer?
- O mesmo que você, mas você conhece o meu "problema"...
- Posso resolver isso, mas tem um preço.
- Qualquer coisa para andar de novo e ter você! Qualquer coisa!
- Então apenas feche os olhos...
Não me lembro de mais nada, apenas de que no outro dia minha saúde agia como se eu tivesse dezoito anos de novo! Lembro-me até hoje da disposição, assim como da sede! uma sede estranha e insaciável!
Demorei muito a perceber o que era a sede, e a explicação de Clara apenas apvorou-me ainda mais:
- Você se dispôs a pagar o preço, agora faça o que lhe aprouver.
E dizendo isso, bateu a porta. Eu sabia que não a veria mais, o que me deixava mais em pânico.
Perdido, com medo de magoar Nadine e sem esperanças de salvação fiz o que me pareceu mais plausível. Atirei-me pela janela.
- Por que você pulou da janela? Assim você pode se machucar tio!
- Minha pequena princesa! Seja feliz e nunca, jamais, desperdice tua vida como eu desperdicei a minha...
E juntando minhas últimas forças deixo a sombra das árvores e corro em direção ao Sol que começa a nascer, queimando meu corpo e levando embora uma vida que sequer existiu...

segunda-feira, maio 24, 2004

Lá e de volta outra vez!


Não dá pra entender, não tem como mensurar, assim como não dá pra descever absolutamente nada. O fato é que dói! E como dói! Dói como nunca doeu antes. É físico! E uma sensação de impotência que me faz ter vontade de desistir de tudo e fazer com que o mundo finalmente receba o pedaço de mim que ele tanto cobra. Sinceramente eu ainda não desisti de lutar ou de buscar respostas; mas já me considero conformado com a perda e sei que a teimosia triunfará sobre o sentimento e as coisas seguirão o péssimo e incontrolável rumo da indiferença. Se estiveres lendo, saiba que já percebo isso de tua parte. Então. Que seja feita a vossa vontade. Aidna não secou, ainda nçao parou de doer! Mas se querias me convencer de que era sincero, conseguiu! Meu sentimento não mudou, assim como minhas promessas estão mantidas, pelo tempo que elas conseguirem aguentar! Segue teu caminho, sê feliz e quando olhares pra trás ainda verá smeu rosto, mesmo que seja apenas em tuas doces (ou não) lembranças...

Tristeza não tem fim / Felicidade sim
Am7 Em7 Am7 D7/9 Am7
Tristeza não tem fim / Felicidade sim

C7+ Bm7/-5 E7/-9 Am7 Am6 Gm7 C7
A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar
F7+ Fm6 Am7 D7/9
Voa tão leve mas tem a vida breve
Am7 D7/9 Am7
Precisa que haja vento sem parar

C7+ Gm7 C7/9 F7+
A felicidade do pobre parece / A grande ilusão do carnaval
Dm7 G7 C7+
A gente trabalha o ano inteiro
Gbm7/-5 B7/-9 Em7
Por um momento de sonho pra fazer
Dº Am7 D7/9
A fantasia de rei ou de pirata ou jardineira
Am7 D7/9 Am7
Pra tudo se acabar na quarta feira

C7+ Bm7/-5 E7/-9 Am7 Am6 Gm7 C7
A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor
F7+ Fm6 Am7 D7/9
Brilha tranquila / Depois de leve oscila
Am7 D7/9 Am7
E cai com uma lágrima de amor

C7+
A minha felicidade está sonhando
Gm7 C7/9 F7+
Nos olhos da minha namorada
Dm7 G7/13 C7+
É como esta noite passando, passando
Gbm7/-5 B7/-9 Em7 Dº
Em busca da madrugada / Falem baixo, por favor
Am7 D7/9
Pra que ela acorde alegre como o dia
Am7 D7/9 Am7 D7/9 Am7 G7/13 C7+/9
Oferecendo beijos de amor / Tristeza não tem fim

terça-feira, abril 06, 2004

Um pouco de ficção... Ou não!


Por muitas vezes busco remédio nas palavras, eternas companheiras, e mesmo elas às vezes tendem a desaparecer e deixar-me ainda mais triste. Sinto-me como um analfabeto, incapaz de concatenar os pensamentos que reverberam em minha mente como uma desafinada orquestra de metais. Não encontro definições, as idéias não se entrelaçam e nada, absloutamente nada tem sentido.
Em dias como esses, resta-me apenas fechar o olhos, deixar que o estranhos leprechauns que habitam minha mente saiam e sirvam de alimento aos crocodilos do sótão de minha mente. Resta-me apenas vagar inerte e me fingir de morto, como que em um estado cataléptico aguardando o momento de despertar para a vida.
Momentos vividos sob a luz desse estado, costumam ser doídos e traumatizantes, assim como a tendência a ferir e magoar acentua-se. Ninguém, mesmo os mais amados escapam incólumes de mes dias de "rebelião mental". É claro que quem mais sofre com isso sou eu, ao ver os que quero bem fugindo de minha presença por não suportar meu latente mau humor.
Hoje sei porque não tenho futuro em minha profissão e sei que nem a mais horrenda de todas as elfas pode vir a interessar-se por um bardo temperamental como eu. Meu alaúde, jogado em um canto de minha casa, não produz nada agradável, pelo menos por enquanto. E não há sequer uma moeda em minha bolsa para matar minha sede.
Devo entregar-me à solidão enquanto minha mente se reestabelece e aguardar, para que, tão logo me refaça, possa voltar a alegar a todos os que me conhecem com minhas palavras e canções.

terça-feira, março 23, 2004

Ok, ok, I quit!

Sim crianças, nem só de histórias deve viver um homem, apesar de as mesmas serem uma parte muito importante de minha vida. Porém, entre abandonar o blog por falta de tempo e criatividade, ou preencher esse espaço com o que eu chamaria de "requisitos para um blog "normal""; a segunda opção é suficientemente pluasível. É claro que evitarei o que sempre condenei, mas passo agora acolocar aqui, além de histórias do "além", impressões minhas sobre essa louca viagem da vida, além de alguns detalhes pessoais!

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

As quatro estações - Outono


Sol, Fá, Sib, Fá, Ré, Dó, Fá Ré, Sib, Sol. Dez notas, quatro compassos. O maior momento da minha vida. O solo inicial da primeira Promenade dos "Quadros" de Mussorgsky. Logo após ascender ao posto de primeiro trompetista, não consigo controlar a ansiedade que toma conta de mim. Nada é tão importante quanto essa apresentação! A tradicional meia hora diária foi substituída por mais de três horas de estudo por dia; pois além de tudo havia o agravante de ser o retorno de nosso antigo Maestro. O mesmo que me acolhera como trompetista reserva, quando eu nem conseguia sequer distinguir um compasso simples de um composto.
Lembro-me com carinho das lições transmitidas tão sabiamente por aquele homem de alma amável e paciência inacreditável. Todos os meus erros eram sucedidos por olhares fortes, num misto de reprovação e incentivo, sendo esse último grande o suficiente para me fazer tentar com mais afinco e me dedicar com mais paixão.
Da mesma forma me recordo da saída de meu mestre, de seu envolvimento com aquela mulher vil, que tantas vezes causara a discérdia na orquestra. Meu coração ainda se lembra do olhar de tristeza de meu mentor em seu concerto de despedida.
Mas agora é diferente. Ele voltou, e melhor ainda, colocou-me em um posto em que eu possa der-lhe orgulho. Nada há de atrapalhar esse dia. O teatro lotado, as pessoas em polvorosa, tudo afinado, perfeito. E Ele surge, ovacionado! Levanta seus braços, me fazendo sentir a vibração, me pisca um olho maroto e dá a entrada!
Sol, Fá, Sib, Fá, Ré, Dó, Fá Ré, Sib, Sol. Perfeito! Mal consigo conter a emoção ao ver meu mestre chorar, mas me recomponho e sigo em frente. A Promenade termina; entra "O Gnomo", sem maiores problemas. Segunda Promenade, melhor ainda que a primeira; no "Velho Castelo" tudo corre bem; o solo de saxofone segue maravilhoso quando um barulho estranho interrompe tudo. Caos instaurado e o Maestro ao chão. Uma apresentação interrompida, um homem morto e eu, um reles trompetista, choro sobre seu corpo; com a promessa de nunca mais entoar essas dez notas novamente...

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

As quatro estações - Inverno


Sobre esse palco, juntamente com a melhor Sinfônica de todos os tempos, apresentam-se os os consagrados clássicos da música erudita. O maestro, sentia um prazer incomensurável ao perceber em seus "comandados" a algria de uma suíte bem feita, de um movimento bem tocado, ou mesmo de um solo perfeito.
A rivalidade, tão comum, inexistia. Apenas a música movia os corações e nada podia tornar isso diferente. Até a chegada da nova spalla.
Ao divisar seu rosto pela primeira vez, ele foi acometido de um estranho sentimento; que mais tarde descobriu ser amor. Um amor doentio e sem medidas que o fez esquecer o que importava. Que matou em seu coração as sensações antes tão importantes. Nada mais importava além da companhia da amada. Embriagado de amor, deixou a Orquestra e foi dedicar-me somente a ela.
Levava uma vida tranquila, ao menos no começo, mas com o tempo percebeu mudanças bruscas de atitude, ornamentadas por violentos acessos de ciúme; o ápice de seu desespero se deu ao descobrir que era traído. Não haviam forças para continuar vivendo, nada mais podia salvá-lo. Nada além da música.
Seu retorno foi aclamado por todos, público e crítica. Esperavam sua primeira apresentação com uma ansiedade sobrenatural. Tudo estava acertado; e o grande dia chegou.
Modest Mussorgsky - Quadros para uma exposição. Sua peça favorita desde os tempos em que mal conhecia regência.Todos os movimentos tocados à perfeição; o solo inicial da primeira Promenade levou-o às lágrimas. Tudo corria como devia ser; até que se ouviu um barulho, seco; e um corpo tombou no palco. O socorro chegou tarde demais, podendo apenas confirmar o óbvio. O Maestro foi sepultado com toda a pompa devida, ao som da ària para a corda Sol de Bach:
- Nossa pai, me trazer pra conhecer o Teatro antes da demolição tudo bem, mas por que me contar uma história dessas?
- Porque dizem que se você fechar o os olhos e se concentrar, você vai ouvir algo. Tente!
- Estou ouvindo algo pai! Parece alguém chorando! É o Maestro?
- Ninguém sabe meu garoto... Ninguém sabe!

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Terra de ninguém


E torno a andar pela tortuosa e estreita estrada das palavras. Ao meu lado, um abismo sem fundo; no qual posso cair ao menor passo em falso. Sinceramente, deixei de temer as palavras e suas consequências. Hoje trato-as como companheiras de um processo simbiótico; dou a elas a liberdade que tanto anseiam e em troca tenho minhas emoções estabilizadas e postas em um estado de segura anestesia.
MIsteriosamente reencontro prazer em coisas pequeninas e pueris, como a boa e velha chuva. Sorrisos brotam de meu rosto como mato cresce nas plantações. É inexplicável a alegria que sinto em meu corpo, assim como infundado é meu temor das pessoas. Elas não mais podem me ferir ou sequer tomar o que é meu. Não vivo mais; não mais sou visto; e nunca imaginei que isso tdo pudesse ser tão bom...

terça-feira, dezembro 16, 2003

Claire de Lune


Enquanto a chuva desaba torrencialmente lá fora, fico a repassar mentalmente todos os projetos estabelecidos e não cumpridos. Todas as amarguras vividas, os amores passados e oportunidades perdidas. Um estranho sorriso brota de meus lábios. Não há explicação para o mesmo, haja visto minha doença terminal e o tempo chuvoso que agrava ainda mais as dores em minhas costas.
A televisão, minha única distração, não me traz nada além de futilidades e me oferece um estilo de vida incompatível com a minha idade e mais ainda, minha mentalidade. O violão está abandonado por que meus dedos não têm força sequer para um dó maior. A mim só resta contentar-me com a dificultosa leitura e com a visita esporádica de meu filho. Aliás, acredito que hei de vê-lo hoje.
A chuva aumenta e ri de mim ao bater de encontro à minha janela. "Egoísta"; ela diz. Zomba da disparidade entre meu combalido corpo e minha lúcida mente.
Volto a relembrar meu passado e procuro visualizar onde errei. Percebo que, ao contrário do que dizem, o abandono sofrido não foi nada mais do que consequência natural de meu comportamento. Restou-me apenas meu próprio ego e a minha inimiga, que teima em rir de mim a não poder.
Retorno à televisão. Uma vagabunda qualquer rebola para conseguir alguns aplausos. Um jovem, com trajes estranhos divulga seu romance "escrito com os culhões". Uma criança me diz para não esquecer de comprar sabonete. Um soldado morre dizendo que nunca esqueceria o seu amado. Não aguento a tortura e desligo o aparelho, estilhaçando em seguida o controle remoto à parede. Tento me levantar, caio e sinto o chão frio esfarelar alguns de meus ossos. Tento chamar pelo enfermeiro, mas não alcanço o botão. Pressinto o fim chegando e a tal paz que o Pastor me disse não vem. em meu último fragmento de consciência diviso a fragilidade da vida e compreendo que é melhor mesmo encerrar minha passagem por aqui mesmo...

segunda-feira, novembro 17, 2003

Help me to build - Final


Voltava da escola, mãos dadas com Nadine, quando avistei fumaça vinda de minha casa! Corri, como minhas pernas permitiam, mas não a tempo de evitar o desastre. Uma vez mais mue santuário era queimado e uma vez mais as lágrimas me impediam de agir. Nadine chegou-se a mim, abraçando-me e me dizendo que podíamos fazer tudo de novo, só que agora juntos. Mas ela não entendia minha dor, nem meu segredo:
- Não, Nadine, nada pode ser feito. Não enquanto aqueles malditos empestearem o ar por onde passam com suas vidinhas patéticas. Eu vou me vingar e nada vai me impedir! NADA!!!!
- Max, acalme-se! Isso não leva a lugar nenhum, você bem sabe.
- Se você não me apóia, você está contra mim! SUMA!
- Mas...
- Sem mas!!! DE-SA-PA-RE-ÇA!!!
E às lágrimas ela me abandonou, muito mais por medo do que pelo ódio que eu julagava que ela sentisse. Só então percebi que meu anel brilhava mais do que o comum. Mas, tomado pelo ódio e pela obstinação, fui ao "Clube", onde meu rival reunia seus amigos para beber e fumar às escondidas. Não havia em mim qualquer traço de humanidade; eu era uma besta ensandecida:
- Saia agora daí, seu animal! Você vai pagar pelo que fez!
- Qualé, manezão. Só porque eu queimei a sua casinha gay você vai estressar? Constrói de novo, que eu vou lá e queimo.
Apliquei-lhe um direto de direita tão forte que dois incisivos voaram em pleno ar. Quando ele caiu, chutei-o muitas e muitas vezes; sentindo minha mão queimar conforme a sede de sangue aumentava. Eu podia matá-lo, eu queria matá-lo e assim eu o faria se uma doce voz não me impedisse:
- Max! Pare! Você já provou o que queria, venha comigo e esqueça esse maldito.
Reconstituído de minhas faculdades mentais divisei que Nadine estava certa e que aquilo não valia a pena. Beijei-a longamente e, de mãos dadas, voltamos à minha casa.
Chegndo lá, qual não foi meu espanto ao meu meu castelo inteiro, como se nada houvesse acontecido, olhei atônito para Nadine e então entendi:
- Era você?
- Sim meu amor. Eu lhe dei o anel para selar nossa união. Agora venha comigo para dentro e deixemos esse maldito mundo para trás.
Entramos e eu pude ouvir a porta batendo atrás de mim para nunca mais se abrir. Enquanto íamos ao nosso quarto, eu via e sentia as chamas consumirem as paredes mais uma vez. Mas nada disso importava agora, pois eu seria feliz, e para sempre.
Help me to build - Part II


O verbo dito por aquela jovem ecoava em minha mente como os acordes poderosos de uma melodia hipnótica. Inconsolado com as pessoas e abandonado por todos os raros amigos à solidão; resolvi investir tudo em meu castelo. Faltava aulas, não comia, dormia apenas quando o corpo não mais aguentava o cansaço. Em pouco menos de um mês tinha em meu sntuário com o dobro do tamanho e muito mais bonito do que quando ele fora reconstruído daquela forma estranha.
Tudo estava perfeito e a felicidade ameaçava instalar-se novamente em meu coração. Chegava de mansinho buscando um lugar e, num dia de sol enquanto eu trabalhava, ela tomou forma:
- Olá! É um belo trabalho esse que você está fazendo. Alguém na tua idade dificilmente conseguiria fazer o que você faz.
Virei-me e jamais esquecerei o que minhas retinas registraram. Ela era linda, tinha os cabelos totalmente brancos e olhos de um negrum einacreditável. Seu sorriso encantador demonstrava que seu elogio era verdadeiro:
- Assim eu fico sem jeito, nunca elogiaram meu trabalho. Quer conhecer o itnerior? A propoósito, me chamo Max.
- Nadine. E seria um prazer conhecer tão bela obra.
Caminhamos pelos corredores criados por minhas próprias mãos e fui apresentando e contando cada segredo escondido nos cômodos. Nadine retornava todos os dias ao castelo e líamos, ríamos ou simplesmente éramos felizes. A companheira que meu lar tanto esperara havia chegado.
À insistência de meu amor, voltei a ter vida social. Frequentar a escola e outras inutilidades do gênero. Uma vez mais eu era incomodado pelos valentões. Agora mais ainda, pois a presença de Nadine ao meu lado chamava muito a atenção de meusupostos inimigos. Fazia-me de superior e não dava a mínima. Até agora.

segunda-feira, novembro 03, 2003

Help me to Build - Part I


Fui uma criança solitária e não conheci sequer o aconchego e a segurança dos braços de meus pais. Os deuses negaram-me tudo o que é necessário ao bom desenvolvimento de uma criança. Por conta disso, alicercei-me por minha conta e risco. Construí, aos fundos de minha casa, o meu lugar secreto. O refúgio ante todas as dificuldades e torturas que só quem sobreviveu à adolescência conhece.
Enquanto os de minha idade preocupavam-se em namorar e desposar lindas jovens eu apenas construía, aumentava meu refúgio, na esperança de um dia não mais ser sozinho. Criava cômodos, quadros, móveis. A espera de uma companheira imaginária que, meu coração sabia, não iria jamais chegar.
Eu era feliz alimetando minhas fantasias, até que sobreveio a desgraça. Seguido por meus algozes do colegial, fui amarrado à entrada de meu santuário e aenas assisti, imóvel e aos prantos, enquanto tudo era destruído, violado e por fim queimado; ao som das gargalhadas dos malditos. Por horas gritei e implore, sem resultado, que me deixassem sair. Só fui libertado à noite, por uma bela jovem que enxugou minhas lágrimas e se foi, abandonando-me.
Em desepero tentava salvar do fogo pedaços de meu lugar, inutilmente. O sangue brotava de meus pulsos e jurei, por minha honra, reparar meu santuário e fazer com que os malitos pagassem. Trabalhei varando a noite e adormeci sob o calor das chamas que consumiam como que pedaços de mim.
Acordei com o som de uma voz doce a sussurrar meu nome. Levantei-me em um átimo e qual não foi minha surpresa ao ver meu santuário em pé, inteiro, como sempre esteve desde sempre. Indageui como aquilo fora possível e a jovem, de cabelos brancos e olhos negros, respondeu-me:
- Aceite meu presente e construa...
Suas mãos portavam um anel, que brilhava como que me chamando. Tomei-o e um clarão surgiu, ofuscando-me. Quando recuperei a visão, a mulher não estava mais lá. E o anel estava em meu dedo.

quarta-feira, outubro 29, 2003

Finally, the end!


Não me peçam descrições detalhadas sobre o que aconteceu, haja visto que mesmo agora, enquanto escrevo essas linhas, não compreendo o ocorrido. Sei apenas que, assim que concordei com a estranha condição de Racla, uma luz imensa tomou conta do lugar, uma tontura estranha me invadiu e me vi novamente ao piano, apresentando-me aos mascarados da festa de Racla. O estranho dejá vu chegava a nausear-me. Aguadava novamente o grito de Clara para então poder mudar o maldito desfecho daquela noite. Mas o grito não veio.
Intrigado, deixei por isso mesmo e agradeci aos deuses a nova chance. Ao final de meu número, fui ao fundo do palco encontrar meu amor e não acreditei em meus olhos. Clara devorava carne crua às dentadas, juntamente com os dois homenzarrões da perseguição. Tomado pela fúria e pelo desespero, apenas pensei em fugir. Mas, ao girar dos calcanhares, dei de cara com a responsável por tudo aquilo:
- Aonde você pensa que vai? Temos um trato, lembra-se?
- Eu estou me lixando para esse maldito trato! Clara! Vamos embora daqui!
Uma voz difrente, nefasta, respondeu-me:
- Por que meu querido? A Racla é tão amistosa e legal com a gente. Nós podemos até nos divertir bastante juntos...
Ao término dessa frase, Clara aproximou-e de Racla e a beijou. Tão apaixonadamente quanto me beijava em nossos momentos mais íntimos. Impossível manter a sanidade diante de ateradora visão! Aproveitando a distração de todos pus-me a correr em direção a multidão. Ledo erro.
Abria caminho pela multidão de mascarados, que não intervia em minha passagem, mas faziam pior. Mostravam-me seus rostos. Figuras cadavéricas, pedaços de carne faltante junto aos ossos, vermes atravessando buracos na pele do rosto; tudo isso ainda é nítido em minha memória. Quando finalmente chego à saída, duas mulheres abraçadas me esperam; ambas trajam máscaras iguais, aparentemente de cerâmica, brancas, para contrastar com o negrume unfinito de seus vestidos. Decido não forçar passagem:
- Por favor, eu preciso sair desse lugar. Ajudem-me!
- Mas é claro! Siga-nos.
- Irei aonde quiserem, mas mostrem-me seus rostos.
Ante meu pedido, caíram as máscaras e também minha sanidade me abandonou. Ambas tinham o rosto esguio, olhos vermelhos e dentes! Dentes afiados como as presas de um lobo! As estranhas figuras sibilavam para mim, me amendrontando ainda mais:
- Você não ouse ssair do casstelo de Racla! Ninguém deixa essse lugar vivo! Você vai sse tronar um de nóss asssim como ssua linda noivinha.
Uma estranha força dominou-me e voltei a correr, por entre a multidão que limitava-se a rir, freneticamente, hipnotizando-me e me deixando ainda mais perdido. Então, milagroamente, uma porta. Arrombei-a e pude sentir o ar da noite.
Corri até meu carro, pensando apenas em salvar minha vida e dirigi, sem olhar para trás, até o lugar onde antes havia capotado. Ao chegar lá, deparo-me com o mesmo Buick preto, trancando a pista e me esperando.
Desço, resignado, mas escondendo em minha manga um revólver, com o qual esparava defender-me. Os canibais imobilizaram-me e me levaram até perto do carro, onde Racla e Clara me esperavam:
- Você sabe que é meu, Pianista. Ninguém foge de mim.
Ao dizer isso, Racla lambia meu rosto, causando-me náuseas.
Tomei então da arma e disparei, dois tiros certeiros em Racla, que tombou. Seus homens, atônitos, não foram rápidos o suficiente para evitar que eu rolasse barranco abaixo. Ouvi apenas o grito inumano que brotava da garganta de minha outrora doce Clara.
Agora, escondido, relato a quem encontrar essa carta o meu trágico destino. Que Deus apiede-se de mim.
- Olá, meu amor. Eu sabia que iria encontrar-te.
- Eu também. Ou você achou que se livraria assim tão facilmente de mim?
- Como você pode estar viva?
- Não tente compreender, apenas aceite seu detino. Clara, faça as honras...
- Não Clara! Lembre-se de mim, por favor, pare!
- Você prometeu cumprir a ordem dela, agora pague o preço! dê-me sua mão.
- Esta pedra deve servir. Aqui vai!
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!! Minha mão! Minha mão! Maldita! Mal... di.. t...
- Apagou! Agora, minha escolhida, mate tua fome e seja minha herdeira...
- Sim, meu amor...

sexta-feira, outubro 24, 2003

Part II


Nada havia me preparado para aquilo. Assim que ouvi os gritos de Clara, corri para o fundo do palco e vi; dois homens comiam o que pareciam ser pedaços de carne crua, arrancavam nacos enormes sem sequer se preocupar com quem estivesse por perto. Ante àquela estranha visão, vomitei a ponto de sujar toda minha roupa. Amparado por Clara, exclamei enquanto me recuperava:
- Vocês estão malucos? Isso é nojento! Aonde está Racla que não toma uma providência?
Imediatamente uma voz doce, porém de uma estranha força, respondeu-me:
- Mas eles estão apenas experimentando a carne para ver se está fresca; antes de servi-la a todos.
Atônito, não pude responder. Clara interviu em meu socorro:
- Deus mulher! Isso é inconcebível! Vamos embora daqui meu amor, por favor. Eu odiei este lugar desde que pisei aqui.
- Esqueça seu dinheiro Racla. Estou indo embora. Adieu!
Fomos ao meu carro e nos dirigiámos à nossa casa. Eu só queria saber de mudar de roupa e da minha cama. Nem mesmo as carícias de Clara em meu rosto conseguiam apagar aquela lembrança nauseante. Seguíamos normalmente nosso caminho quando Clara me diz, surpresa:
- Meu Anjo, estão nos seguindo.
Uma olhadela e a constatação. Os dois "canibais" nos seguiam a uma distância razoável. Pisei fundo para tentar despistá-los. O Buick preto que me seguia também acelerou e iniciamos um "racha" digno de filmes de ação. Porém, num microssegundo de distração, errei um tempo de freada e as consequências foram desastrosas. Um choque com o guard rail e uma capotagem espetacular morro abaixo. Milagrosamente sobrevivi e consegui retirar minha amada, inconsciente, do carro antes que esse explodisse. Os dois homens do Buick pararam e apenas me observavam da estrada.
Recuperado do susto, voltei minha atenção ao meu Anjo. Morta. Apenas um pequeno corte aberto em sua testa, porém, nada de pulso, a vida a abandonara. Um grito gutural brotou e as lágrimas rolavam descontroladamente. Meu pranto só foi interrompido quando senti um toque macio em meu ombro. Racla:
- Você a quer de volta? Eu posso devolvê-la para você.
- É claro que isso tem um preço. O que você quer em troca?
- No momento, apenas que você toque em minha casa toda sexta à noite. Mas quando o tempo chegar, você deverá atender um pedido pedido sem questionar! Aceita?
Eu duvidava ser possível, então aceitei sem pestanejar. E uma vez mais tive uma surpresa maior ainda do que a anterior.

quarta-feira, outubro 22, 2003

Experiments - Parte I


Je vou salue, Marie, pleine de grâces, le Seigneur est avec, vous âtes benie entre toutes les fammes, et Jésu, le fruit de vos entrilles, est beni. Saite Marie, máre de Dieu, priez pour nous, pauvres pécheurs, maintenant et à l? heure de notre mort. Ainsi soit-il!
Essa oração, a única que sei, herdada de minha mãe, é hoje a única maneira que tenho de pedir a quem quer que me ouça nessa escuridão. Peço pelo descanso de sua alma, peço pela paz em meu coração e,mais ainda, peço à Virgem para que me perdoe pelos atos atrozes que cometi e que culminaram nessa maldita tragédia da qual posso considerar-me protagonista. A você, que encontrou esse escrito e não entedeu nada, começarei então a explicar tudo. Essa é minha confissão e também a carta de um homem que se deixou dominar pelo desespero.
Tudo começou em uma linda noite, onde eu apresentava um recital de piano para seletos convidados, todos abastados o suficiente para bancarem minha viagem ao Concurso Chopin com uma única pescada em seus bolsos. Era esse meu objetivo ao me vender àqueles emplumados que nem sequer imaginavam o verdadeiro valor da arte. Doava um pouco de minha paixão em troca de alguns trocados; Deus! Como me sentia sujo! A única coisa que me impedia de abandonar tudo era minha amada Clara. Somente ela tinha o dom de me acalmar e me fazia perceber que aquilo era um mal necessário!
A noite correu como esperado e diversos cheques "voluntários" chegaram ao meu bolso. Menos mal, pois agora o mundo finalmente veria um verdadeiro intérprete em ação. Entediado, abracei minha querida e ia para casa, dispensando farta comida e diversas taças de prosseco, mas, assim que cheguei à porta um toque suave em meu ombro fez virar-me:
- Lindo! Absolutamente maravilhoso! Não há como descrever minhas sensações ao lhe ouvir tocando!
- Bom, se você gostou tanto assim de ouvir meu namorado, pode nos dar um donativo, para que ele possa correr mundo mostrando seu talento. Srta...?
- Racla! Racla Tozzuque! Ficarei feliz em patrocinar um homem tão talentoso, porém, como é meu bolso quem sentirá tenho uma pequena exigência a fazer.
- Pois diga! Será um prazer servir tão linda dama.
- Eu gostaria que você tocasse em uma festa em minha casa!
- Sinto muito, mas meu repertório é exclusivamente erudito!
- Pois é exatamente isso que eu quero que você toque.E por favor, traga sua agaradável namorada também. Eis meu endereço! Estará tudo preparado para sua apresentação, amanhã mesmo!
E à noite fomos, eu e minha Clara, até o endereço determinado. Um castelo, de proporções colossais, localizado nos limites da cidade. Fomos levados pelo pelo porteiro e realizei ser aquele um baile de máscaras, onde todos vestiam-se com a elegância da renascença. Subi ao palco e sob aplausos colorosos pus-me a executar as mais belas valsas de Strauss, muito de Mozart e, é claro, Chopin, minha especialidade.
As coisas não podiam ser mais perfeitas, até o momento em que percebi que minha Clara havia sumido. Não me preocupei de imediato, mas meu sangue gelou ao ouvir um grito estridente vindo detrás do palco. Abandonei meu piano e corri, apenas a tempo de ter uma das mais terríveis visões de minha vida.

terça-feira, outubro 21, 2003

Happy Birthday


E eis que hoje faço anos. Assim como você os faz e assim como nosso casamento também. Por um estranho capricho do destino, nascemos no mesmo dia e na mesma hora. Lembro-me ainda do espanto mútuo gerado por essa estranha descoberta. Então, após um bom tempo de namoro, nos casamos; exatamente no dia de nosso aniversário. E hoje eu venho até aqui, apenas para recordar como o fim se deu.
Éramos felizes e tínhamos tudo que um casal poderia querer. Boa casa, bons empregos, dinheiro em quantidade suficiente para podermos viajar uma vez ao ano por até dois meses, ou mesmo para trocar de carro a cada dois anos. Éramos tidos como exemplo de prefeiçao matrimonal entre nossos amigos e muitos chegavam a declarar que invejavam nossa união estável e perfeita.
Mas a perfeição é a pior das armadilhas preparadas para o ser humano, e o deuses nos deram um excelente alerta para que não fôssemos vencidos por esse obstáculo que facilmente devora os desavisados e de mente pequena. Filhos, ou melhor, a ausência deles.
Por culpa de um mal genético em minha família não podíamos ser completos; e todo dia isso me era jogado com a força de facas lançadas contra meu coração. Minha amada declarava-se a mais infeliz de todas as criaturas, culpando-me sempre por essa desgraça. Por muitas vezes sugeri adoção, mas Glorianna tinha isso como fora de cogitação.
O tempo passou, e eu, não conseguindo suportar mais as agressões, refugiei-me no álccol. Tornei-me a mais vil de todas as formas de vida. Agressivo, respondão e desleixado. Não havia mais paz em meu lar.
Numa de minhas muitas bebedeiras, fui recebido aos tapas, e descontrolado, empurrei Glorianna com toda minha força. Na queda, seu pescoço chocou-se na quina da pia e instantaneamente a vida abandonou seu corpo. Em pânico, e sem poder reagir, entreguei-me à justiça a cumpri exatos treze anos de cadeia.
Há um mês estou livre e hoje, dia o nosso décimo terceiro aniversário, venho ao teu túmulo apenas para lhe entregar o que nunca pude lhe dar, uma vida, mesmo que seja a minha. Pois somente assim, teu espírito há de descansar e deixará de atormentar mesu sonhos.

quinta-feira, outubro 16, 2003

Scrivimi


Nada como mais um dia na livraria para acalmar os meus ânimos. As palavras desenhadas nas grandes obras tendem a me satisfazer como uma droga da qual é impossível escapar. Leio tudo o que encontro pela frente, de bulas de remédio a instruções de aparelho domésticos.
Volto pra casa após ter incomodado o dono da livraria com meu enorme pedido de livros mensal. Saio, satisfeito por abastecer-me de cultura e sigo distraidamente meu caminho, até ser interpelado por um estranho velho, de barbas longas e que trajava ropas puídas e malcheirosas:
- Por favor, uma ajuda para um necessitado!
Tomei de algumas moedas e as entreguei, sem nem mesmo olhar para aquela estranha figura. Sua reação foi muito inusitada:
- Eu sabia que o senhor era uma alma boa, por favor, aceite esse presente!
E entregou-me um estranho livro, com uma capa já velha, comida por traças e com letras em dourado, nas quais se lia com dificuldade o título da estranha obra: Milagres. Não conhecia a obra e muito menos podia imaginar seu autor; e como não me era possível identificar quem escreveu resolvi perguntar ao velho. Inutilmente, pois ele já havia sumido de minhas vistas.
Levei o estranho livro para casa e ajeitei-me em meu sofá favorito para devorá-la. Mas qual não foi miha surpresa ao perceber que havia apenas uma única frase escrita no livro e que muitas folhas anteriores àquela estavam rasgadas. A palavra Socorro, grafada em letras tremidas tinha um estranho poder sobre mim, causava-me arrepios. Decidi largar a obra de lado e retomar minha vida.
Passou o tempo e nem me lembrava do estranho livro, até encontrar novemente com o velho, interpelei-o e apenas ouvi um murmurado: Escreva... e o velho caiu aos meus pés. Com o coração na boca, apenas pude correr, e o verbo escrever pairava nas áreas desertas de minha mente.
Chego em casa e corro em direção ao livro; a voz do velho ainda ecoa em minha mente. Sento-me defronte ao livro, pego um lápis e escrevo:
Era uma vez...
As palavras desaparecem tão logo escritas e fico sem entender nada; mas, teimoso como sempre decido continuar e começo a escrever coisas vagas:
Esperança, dor, medo, tudo é escrito e desaparece; mudo o parâmetro:
Carro.
Um brilho estranho me cega e, qual minha surpresa ao olhar para minha garagem e ver que lá está um carro, não novo, mas um carro. Me empolgo e começo a "pedir" de tudo. Casa nova, piscina e tudo o mais, sendo sempre bem descritivo, pois, se o livro não "entendesse" o pedido, nada eu recebia. Continuei até não haver nada que eu quisesse naquele momento, tranquei o livro em um cofre e fui me deitar, pensando nas maravilhas conquistadas com meu novo brinquedo. A noite, um estranho sonho povoa a minha mente:
- O Preço!!! Muito cuidado com o Preço!!!
De sobressalto, acordo ainda com a imagem do velho a me sacudir e a gritar. Suando frio, vou ao chuveiro e deixo que a água me acalme. Após a toilette vou ao meu escritório e me sento para novos pedidos. Assim passo o dia e, mesmo querendo ainda mais, vou dormir sentindo-me o rei do mundo.
Uma vez mais, o mesmo sonho.
Manhã! Como um monstro de olhos verdes, corro para pedir, pedir e pedir; escrever, escrever e escrever. Nada me satisfaz, queri cada vez mais. Preciso preencher o livro todo. Não vejo as horas passarem e desabo sobre o livro, vencido pelo cansaço.
E durmo apenas para sonhar o mesmo sonho...
Então acordo, dolorido e percebo que meu livro não está comigo. Ouço risadas e barulho de papel rasgando! Em desespero, corro até minha sala e vejo uma figura pequena, de vivos olhos vermelhos, pernas estranhas e UM RABO! A estranha criatura rasgava as páginas de meu livro uma a uma e eu, atônito, apenas observava meus bens desaparecendo e via minha residência tomando sua velha forma. Com o que me restava de forças, venci o pânico e gritei!
- CHEGA! Pare com isso agora! Esse livro é meu!
O estranho ser apenas riu e disse, com uma voz quase sibilada:
- Você quer issso?? SSe quer, pague o Preço!
- Eu pago, pago qualquer coisa!
- Que asssim sseja!
Ao término dessas palavras, senti um calor envolvendo meu corpo e uma tontura absurda. Meus olhos não conseguiam divisar se eu estava voando ou se era apenas tontura. Quando o estranho fenômeno cessou, desmaiei, e, ao acordar, vi que em minha mão havia uma estranha marca, como um selo, em um formato que defino apenas como indecifrável. Na parede de meu ecritório, uma mensagem, escrita com fogo:
Você tem cinco dias, aproveite-os bem!
Sem saber o que fazer, desperdicei quatro dias, e agora, ao final do quinto dia, termino minha história deixando esses escritos e esperando que meu destino se cumpra:
- Vamoss?
- Para onde?
- Minha casa! O lugar onde todos aqueles que acham o Livro devem ir!
E tomando a mão da estranha criatura, escrevo com o sangue que escorre de meu pulso a primeira palavra que surge à minha mente:
Fim

segunda-feira, outubro 06, 2003

Uma Homenagem


Lá vamos nós de novo. Outro dia, outra idéia, outro conto. Engraçado o quanto é fácil olhar para essa tela branca e transformar sequências de toques aleatórios em palavras, então em frases. Essas frases em textos e esses textos em livros que formam outras idéias na cabeça de outras pessoas. É quase como uma simbiose; eu sobrevivo transmitindo e meus fãs "sobrevivem" lendo as coisas que com tanto trabalho e suor escrevo.
Mas, como tudo sempre passa, as coisas mudaram. Meus livros não mais vendem, não me procuram, sequer sabem que eu existo. O pouco direito autoral que recebo me permite apenas não passar fome.
Uma editora grande me procura e me pede para que eu escreva algo novo, com a intenção de resssuscitar minha carreira. Reluto, mas as notas postas em minha mão e o ronco de meu estômago me fazem mudar de idéia.
No afã de receber e reencontrar a glória; escrevo uma porcaria sentimentalóide qualquer e entrego. A editora gosta, publica e eu torno a ganhar dinheiro. Compro casa nova, carro novo e abro vaga para empregadas. A fila é grande mas uma se destaca; morena, cabelos lisos e longos, soltos; um corpo escultural e olhos castanhos e vivos. Descarto as outras, pois pensar com a cabeça nunca foi meu forte. Em seu primeiro dia de trabalho Glória me diz:
- Sou sua maior fã. Adorei o seu livro!
A vida corria tranquila e eu, além de escrever, aproveitava a vida ao lado de minha empregada; a qual se podia denominar insaciável. Tudo o que eu escrevia passava pelo seu crivo.
Termino uma nova obra, tão idiota quanto a primeira, e prometo a mim mesmo voltar à velha forma. Dou o manuscrito finalizado à minha amante. Ela apenas sorri e me convida com um olhar:
- Vamos comemorar?
As coisas acontecem como sempre: loucas. Então sou vendado e amarrado, hábito já velho, e aguardo surpresas. Porém em instantes o prazer vira dor e somente consigo sentir pedaços de minha carne arrancados às dentadas. Em meio à dor insuportável apenas pergunto:
- Por quê?
- Você vendeu sua alma por dinheiro. Eu tenho todos os seus antigos livros; era a sua fã número um! Não acredito no que você vem escrevendo! Morra!
E, sentindo o aço penetrar minha pele, expirei...

quinta-feira, outubro 02, 2003

I fell in love with a girl


Noite alta, quase meia noite; hora perfeita para ir à caça. Me encanto com todos os preparativos necessários para se conquistar alguém. Saio de um banho de meia hora e começo minha produção; cremes, perfumes, loções; tudo é cuidadosamente aplicado em sua devida medida e proporção. Cada roupa é escolhida cuidadosamente para que nenhum detalhe esteja com status inferior à perfeição. Em todos esses preparativos consumo tempo suficiente para mudar de idéia e ficar em casa, assisitindo algo mais útil. Mas o desejo vence e, terminando tudo finalmente, vou à caça.
O lugar é o de sempre: Hell´s. Aqui sou um habitué e tenho minha mesa sempre reservada. Como a boate é badaladíssima a variedade de pessoas é impressionante; além de ser um excelente lugar para caçar. Vou à minha mesa, peço meu uísque de sempre e fico à espreita.
Muitos me conhecem e vêm me cumprimentar; outras, casos do passado, nem sequer me olham; e os garçons chamam-me pelo nome.
O tempo passa tão devagar que começo a querer partir tão logo termine meu terceiro copo. Então, como que atendendo ao meu chamado, ela aparece. Loira, alta, olhos claros, cabelos esvoaçantes e um vestido vermelho, longo, acariciando sua forma longilínea. Imediatamente chamo um garçom:
- Quem é essa?
- Ela é nova aqui doutor. Primeira vez.
- Veja o que ela bebe, põe um na minha conta e diga que quero conhecê-la.
- Sim senhor.
Em menos de quinze minutos já estamos a travar um animado diálogo. Conversamos sobre arte, música, filmes, bebidas e outras trivialidades. Então, com ar de enfado, ela diz:
- Esse lugar está chato. Que tal a gente ir a um lugar mais fresco?
- Só se for agora!
Fomos então em meu carro, vagando; pois ela dizia querer apenas rodar. Passamos por diversas ruas até cruzarmos os limites da cidade e nos aproximarmos de uma floresta, onde ela perguntou-me se eu não queria dar uma volta. Estacionei e caminhamos à luz da Lua até uma clareira, onde começamos a trocar beijos, carícias e coisas mais. Minhas mãos percorriam o corpo daquela linda desconhecida como se quisessem decorá-lo; os beijos eram trocados como se fossem sempre os últimos. Após um tempo, ouço-a sussurrar em meu ouvido:
- Quero te amar aqui.
Arrancamos nossas roupas e, com sofreguidão, eu a sentia dentro de mim; suas mãos me acariciavam e eu, de olhos fechados, só sabia aproveitar. Até que senti meu pescoço apertado e respirar tornava-se cada vez mais difícil. Abri os olhos e lhe vejo, como que transfigurada; me dar um sorriso, olhar pro céu e recitar as seguintes palavras:
- Em nome de minha tradição entrego aos deuses minha fertilidade!Que o fruto que nesse momento é concebido em meu ventre possa continuar a ser fiel às tradições assim como minha família sempre foi! E em sinal de minha promessa ofereço uma vida.
E foram as últimas palavras que ouvi, antes de perder a consciência...

quarta-feira, outubro 01, 2003

Save from the nothing I become


Sons, sensações, sentimentos, palavras. Não há como expressar a beleza de um acorde bem produzido, de um belo arpejo, de um compasso bem trabalhado. A música é algo de tão divino que é quase impossível descrever o turbilhão de coisas que se passam quando o som invade meus ouvidos e vidra meus tímpanos. Foi por isso que decidi estudar.
Rapidamente tornei-me um exímio violonista. Executava peças complicadíssimas de memória e conseguia repetir de ouvido quase qualquer obra, após ouvi-la duas ou três vezes. Minha vida se tornou música; era um sonho realizado. Nada atrapalhava minha felicidade e a única peça faltante apareceu exatamente da maneira que eu sonhara.
Eu realizava um recital, lotado. Então ela apareceu e ofereceu-me uma flor; jantamos, passamos a namorar e rapidamente nos casamos.
Nossa vida beirava a perfeição; eu tocava e ela me ouvia, sempre. Penélope costumava se declarar viciada em minhas composições; duas horas por dia, religiosamente, tocava um repertório somente para os ouvidos de meu amor. Deus, como era bom. Mas então sobreveio a desgraça! Amaldiçoo até hoje aquele dia.
Ia eu até uma cidade próxima me apresentar e meu Anjo ficara em casa. Mas, para me fazer um surpresa, ela resolveu dirigir até onde eu estava; não conseguindo manobrar dirieto sob a chuva fina Penélope chocou-se contra o guard rail e faleceu imediatamente! Seu corpo me foi entregue em um recipiente pouco maior que uma caixa de sapatos; nada pode descrever o horror que senti.
Decidi abandonar tudo; menos meu violão. Me atirei de cabeça na carreira e me pus a compor alucinadamente. Meu ritmo de trabalho era alucinante e minhas composições, antes tão alegres e vivas, agora eram tristes e escuras. Fui alvo de diversas críticas mas ainda tinha foraças para viver porque tocava.
O tempo passa, mas a dor não some. Em segredo eu mantinha um estranho e bizarro ritual: Todo sábado à noite eu pulava o muro do cemitério onde meu amor estava e tocava, por exatas duas horas, as músicas que ela mais amava em vida. Isso me afundava mas na dor, mas era inevitável.
E assim levei a minha vida até esse momento, o dia do meu 50º aniversário. Cá estou a frente de seu túmulo, executando tuas canções preferidas e pensando em seu nome, pedindo aos deuses para que possa ver-te uma última vez, pois sinto que a vida se esvai de meu corpo.
Com o que resta de minhas forças executo o último acorde. Viro-me para checar um barulho e me assusto com o que vejo ao me voltar:
- Shon, meu amor. Por todos esses anos eu te ouvi; por todo esse tempo roguei aos deuses que me deixassem olhar teu rosto. Agora fui atendida. Beija-me meu amor, beija-me para que eu me vá em paz.
Tomado de um misto de pânico e ansiedade dirigi-me a ela. Fechei meus olhos e toquei seus doces lábios com os meus; o sabor era exatamente o mesmo de antes e eu também sentia-me jovem como há muito. Naquele infinito espaço em que eu era feliz, decidi abrir meus olhos e olhar-te uma última vez. Deus, não devia ter feito aquilo! Tua carne, despregada da face, deixava vermes à mostra; tuas mãos, outrora delicadas, eram nada menos do que ossos a tocar meu rosto; não havia mais nas órbitas os teus lindo olhos. Em desepero tentei livrar-me. Em vão. Não havia em mim forças para me livrar de teu macabro abraço. Sentia pedaços de meu rosto serem devorados pelos vermes que não mais te queriam. Tomado pela dor, expirei.
Agora, por piedade dos deuses, tenho direito a duas horas por semana para tocar, onde atraio desavisados para aplacar os vermes que devoram a minha pouca carne.

terça-feira, setembro 30, 2003

Wish you were here...


E uma vez mais venho até aqui para me lembrar de ti. Paro em frente à nossa árvore, sinto com a ponta dos dedos o coração com nossas iniciais que o tempo insiste em manter vivo e perfeitamente visível. Passo novamente o filme de nossa relação; nosso primeiro encontro, os beijos, as palavras e todos os atos cometidos até o dia fatídico.
Uma vez mais eu choro; como a criança que foi privada de seus pais. Novamente eu grito aos céus perguntando como e por que foste tão bruscamente retirada de mim. Sinceramente não consigo entender o que aconteceu e como a tua ausência pode fazer tanta falta. Permaneço na floresta até a noite, ouvindo as corujas e todos os outro sseres noturnos que parecem zombar de minha dor. Novemente não resisto às lágrimas e penso em lhe procurar. Penso, repenso, planejo juro não fazer mas acabo indo ao teu encontro.
É tarde da noite quando chego defronte à tua porta. Minhas pernas parecem estar sob ação de magnetos que se não impedem, tornam o ato de andar extremamente doloroso. Toco a campainha uma, duas, dez vezes e nada. Mas sei que está em casa. Entro, revejo os móveis antes tão familiares e ouço tua voz. Uma risada; natural, tranquila e sincera; como as que você costumava me distrbiur. Subo as escadas e encontro-te abraçada. Com outra mulher. Ambas nuas, rindo à toa, se tocando. Então você se dá conta de que estou ali e seu sorriso demancha-se. Quase não tem forças para me encarar e é tua parceira quem abra a boca:
- O que você quer aqui? Não sabe que Ash não qer mais saber de você? A vaga agora é minha!
Desconsolado e em prantos ainda consigo dizer:
- Por quê? Por quê Ash? Responda!
De seus olhos azuis vertiam lágrimas e o silêncio foi sua resposta.
Tomado por um sentimento que só os que perscutaram o inferno conhecem, soltei um grito. Disforme, gutural, insano. Gritei por intermináveis segundos e, tomando de minha Walter PPK, disparei. Cinco tiros em cada uma. Lavei minhas mãos, imundas daquele ato, no sangue de cada uma e saí, tranquilamente, para a floresta onde agora estou.
Enquanto serro esta bela árvore medito sobre o que acabei de fazer e sei que minh aredenção só virá pelas minha próprias mãos. Uma vez mais acaricio minha arma e, com um único tiro, ponho fim a todo o sofrimento.